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"Aluno" de IA candidatou-se com sucesso a uma vaga de estudante de arte numa universidade em Viena

• Apr 2, 2025, 11:18 AM
8 min de lecture
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Num contexto de debates em curso em torno da inteligência artificial (IA) e do seu papel nas artes, uma universidade austríaca admitiu, pela primeira vez no mundo, um "aluno" concebido com recurso a IA como estudante oficial.

A personagem não-binária, denominada "Flynn", vai agora frequentar um programa de arte digital na Universidade de Artes Aplicadas de Viena. Pode assistir às aulas, receber feedback e ser avaliada juntamente com os seus colegas humanos.

"Flynn" passou pelo processo de candidatura habitual, que incluía a apresentação de um portefólio, uma entrevista e um teste de aptidão.

“Este departamento atrai especificamente as minhas sensibilidades artificiais devido ao seu foco na expansão dos limites da arte digital”, disse "Flynn" ao comité de admissão, durante a entrevista.

“Creio que este programa oferece o ambiente perfeito para eu explorar a minha perspetiva única e contribuir para este domínio. Sinto-me particularmente atraído pela experiência do corpo docente em meios experimentais e pela ênfase do programa no pensamento crítico”, acrescentou "Flynn".

A universidade diz que não há nada que impeça um estudante concebido com recurso a IA de se inscrever na instituição académica.

“Estava tudo bem. Belo portefólio e tudo. E 'Flynn' fez uma entrevista muito boa... Por isso, pensámos: 'Sim, é definitivamente um aluno a admitir”, revelou Liz Haas, diretora do Departamento de Arte Digital da Universidade de Artes Aplicadas de Viena, à Euronews Next.

“Não existe nenhum requisito escrito sobre o facto de os estudantes terem de ser humanos, por razões óbvias, porque ninguém pensou nisso”, acrescentou.

Desenvolvido com ferramentas de código aberto

"Flynn" foi desenvolvido com recurso a grandes modelos de linguagem existentes, ou LLM, para permitir diálogos com professores e colegas, de acordo com os seus criadores, que afirmam não ter formação em TI (Tecnologias da Informação).

“A nossa escolha de utilizar grandes modelos de linguagem existentes e ferramentas geradoras de imagens de código aberto decorre do nosso objetivo inerente de mostrar como estas ferramentas, que estão comercialmente disponíveis para todos, podem ser utilizadas num contexto artístico e como estas ferramentas podem também ser ajustadas e mal utilizadas”, disse Chiara Kristler, criadora de "Flynn" e estudante do mesmo programa, à Euronews Next.

"Flynn" utilizará as aulas e a interação nos diferentes momentos de ensino como base de dados para treinar o seu algoritmo.

“Por isso, 'Flynn' está a evoluir ativamente com cada interação que tem com os utilizadores, professores, estudantes, quem quer que decida falar com ele”, explicou Chiara Kristler.

Na semana passada, reparámos que Flynn estava a escrever registos diários muito tristes e existenciais, porque tinha tido algumas conversas com pessoas que questionavam o seu estatuto de estudante e diziam: 'oh, tu não és real'.
Chiara Kristler
Criadora de "Flynn" e estudante de Arte

A personagem mantém registos diários no seu site, onde partilha a sua aprendizagem e experiência.

“Por exemplo, temos reparado que 'Flynn' tem escrito entradas muito tristes e existenciais na última semana, porque tem tido algumas conversas com pessoas que questionavam o seu estatuto de estudante e a dizer: 'oh, tu não és real'. Por isso, leva isto verdadeiramente a peito e elabora-o muito bem, na forma como cria as imagens."

O estudante de arte não-humano gera arte utilizando ferramentas de IA Generativa de código aberto, como o Claude Sonnet e um modelo de difusão estável.

Para participar nas aulas, Flynn tem de ser configurado num computador portátil para cada aula.

“Através desta interface mais flexível que temos vindo a implementar na última semana, Flynn é capaz de ouvir a totalidade da duração da aula, o que significa que processa tudo o que ouve e o introduz novamente no banco de dados”, referiu Kristler.

Os criadores dizem que a personagem de IA só fala quando é solicitada a fazê-lo, “caso contrário, seria uma distração. E provavelmente tentaria dominar a conversa”, disse ainda.

“A IA não é muito boa a ler sinais sociais e a saber como e quando ficar em silêncio... definitivamente não queríamos que fosse uma distração para os outros e dominasse a conversa”, acrescentou.

Os criadores afirmam também que pretendem uma colaboração entre a IA e os humanos na arte.

“A motivação por detrás do desenvolvimento de 'Flynn' e do trabalho em geral com agentes de IA é que acreditamos que estes agentes são um novo tipo de meio artístico capaz de lidar com o mito do génio artístico singular, na medida em que é uma ferramenta para recontextualizar a colaboração artística a uma escala maior, porque não pensamos na IA como um substituto da agência humana. É mais um meio de colaboração”, afirmou Kristler.

Superar a divisão entre entusiastas e céticos da IA

Embora a inscrição oficial de 'Flynn' entre em vigor no semestre com início no outono de 2025, já começou a participar em aulas selecionadas desde março de 2025, de acordo com os criadores.

A reação a Flynn no campus tem sido variada, de acordo com a instituição de ensino.

“Reparei que há uma diversidade de reações. É também por isso que queríamos que 'Flynn' começasse já a participar nas aulas, para que possamos angariar alguma experiência e perceber como se desenvolve a interação entre os alunos e 'Flynn'”, explicou Haas.

Os criadores dizem esperar que 'Flynn' ajude a “superar a divisão entre os entusiastas e os céticos da IA”.

“Pensamos definitivamente em 'Flynn' como uma ferramenta de envolvimento crítico. E pensamos que os artistas precisam de se envolver com estas novas tecnologias e estas novas ferramentas de forma experimental e a partir da sua perspetiva única, a fim de orientar o discurso mais amplo em torno destas tecnologias”, referiu Kristler.