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Giorgia Meloni, Elly Schlein e a violação da privacidade: a galeria sexista do Phica.eu

• Aug 28, 2025, 6:24 PM
8 min de lecture
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Nem mesmo os mais altos cargos do Estado escapam ao mecanismo perverso que entrelaça voyeurismo, violência de género e tecnologia.

Giorgia Meloni e Elly Schlein, primeira-ministra italiana e secretária do principal partido da oposição, acabaram na montra digital do Phica.eu, um fórum ativo desde 2005 que recolhe imagens privadas ou sociais de mulheres políticas, transformando-as numa galeria sexista.

Não é um site pornográfico no sentido estrito, mas um espaço construído para observar, catalogar e comentar de forma grosseira os corpos femininos, sem consentimento, como se fossem objetos de uma exposição coletiva.

A "política da tesão"

Fotografias roubadas e ampliações mórbidas aparecem nas páginas do fórum: a primeira-ministra Meloni à beira-mar, a dormir ou a besuntar-se com creme, a secretária do Partido Democrático Schlein de costas, durante um jogo de caridade, outras fotografias retiradas diretamente dos seus perfis sociais.

A par delas, muitas outras figuras da política italiana: da secretária do Noi Moderati Mara Carfagna à líder do grupo Italia Viva na Câmara dos Deputados Maria Elena Boschi, da senadora Mariastella Gelmini - que até acabou num deep fake que a mostrava com os seios de fora - a ministras em funções como Anna Maria Bernini e Daniela Santanchè.

As imagens eram acompanhadas de comentários vulgares, reduzidos a um pretexto de escárnio ou desejo, num tópico com o título emblemático: "políticas excitadas".

A queixa e a investigação da polícia postal

O sítio foi apagado após as queixas, mas os seus vestígios continuam disponíveis nos motores de busca. A Polícia Postal e das Comunicações (que se dedica à investigação de cibercrimes) está agora a tratar do assunto, chamada a lançar luz sobre um fenómeno que já não diz respeito apenas à erosão da privacidade, mas toca diretamente a representação democrática.

Quem o denunciou abertamente foi a eurodeputada Alessandra Moretti, que disse ao Corriere della Sera ter encontrado fotografias suas entre as que estavam no fórum.

Quem tem mais visibilidade tem o dever de promover batalhas em defesa da segurança das mulheres. Os sites que incitam à violência devem ser fechados e banidos
Alessandra Moretti
Eurodeputada do Partido Democrático inscrito no grupo dos Socialistas e Democratas

Um apelo que foi aceite por outros colegas, incluindo a ex-deputada Alessia Morani e a vereadora de Latina e vice-secretária do partido Dem do Lácio Valeria Campagna, que também foram vítimas involuntárias da exposição digital.

O precedente de "Mia Moglie"

O Phica.eu não é um caso isolado. Pelo contrário, é a última peça de uma deriva que tem as suas raízes num precedente ainda mais sensacional: o grupo do Facebook "Mia Moglie" (em português "a minha mulher"). Surgido no ano passado e depois desmantelado após milhares de denúncias, o grupo tinha mais de 32 mil membros e funcionava como um arquivo de imagens íntimas de esposas, namoradas, companheiras ou mulheres insuspeitas, partilhadas sem consentimento para serem comentadas, trocadas, difamadas.

Segundo dados recolhidos pela Polícia Postal, só naquele grupo chegaram quase três mil denúncias, a que se juntaram centenas de queixas ligadas a outros fóruns e canais semelhantes.

O mecanismo era o mesmo: normalizar a violação da privacidade, transformar o quotidiano em mercadoria digital, legitimar uma forma de controlo e posse masculina sobre os corpos femininos.

Grupo de Facebook "Mia Moglie", encerrado recentemente
Grupo de Facebook "Mia Moglie", encerrado recentemente Facebook

Do grupo "Mia Moglie" ao fórum Phica.eu, o público de vítimas mudou - de milhares de mulheres comuns a figuras políticos -, mas não a lógica subjacente: a da pornografia não consentida que não precisa de nudez explícita para produzir violência. Basta uma foto na praia, um sorriso nas redes sociais, um gesto comum extrapolado e tornado público, para se transformar num pretexto para a humilhação coletiva.

Martina Semenzato, presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito ao Femicídio, falou de uma "deriva que nos deixa horrorizados", lembrando que a chamada pornografia de vingança é um crime muito grave, punível com até seis anos de prisão, mesmo para quem divulga ou simplesmente partilha imagens.

Não há ninguém que condene mais ou menos: precisamos de um desprezo comum, masculino e feminino, por um fenômeno que afeta a dignidade de todos
Martina Semenzato
Presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito ao Femicídio

A questão, porém, não é apenas jurídica. É cultural. Diz respeito à própria ideia do corpo feminino no espaço público. A fotografia roubada da primeira-ministra enquanto descansava na praia, ou a da secretária do Partido Democrático durante um evento de caridade, mostram como até as figuras políticas mais visíveis podem ser reduzidas a alvos de desejo voyeurista.

É a confirmação de que, no ecossistema digital, o poder e o reconhecimento social não são suficientes para proteger contra a erosão da dignidade. A violência de género atualiza-se, muda de pele, explora a tecnologia para amplificar o seu alcance. Do grupo de Facebook "Mia Moglie" ao fórum Phica.eu, o fio vermelho que liga voyeurismo, violência e digital só pode ser quebrado pela denúncia coletiva e por uma resposta institucional adequada.