Ucrânia sanciona desenhos animados “Masha e o Urso” por alegada propaganda russa
A Ucrânia impôs sanções aos criadores e distribuidores de “Masha e o Urso”, o desenho animado infantil mais popular da Rússia, acusando a série de difundir narrativas pró-Kremlin sob o pretexto de entretenimento para crianças.
As medidas integram um novo pacote de sanções assinado por Volodymyr Zelenskyy, dirigido ao complexo militar-industrial russo, a altos responsáveis e a empresas que Kiev acusa de apoiar o esforço de guerra de Moscovo.
Cinco cidadãos russos e quatro organizações ligadas à produção e distribuição de “Masha e o Urso” constam da lista de sanções, entre elas a Animaccord, o estúdio que produz a série, o seu fundador e diretor executivo e vários dos principais criadores do desenho animado.
“O programa difunde narrativas pró-russas disfarçadas de conteúdo infantil”, afirmou o gabinete de Zelenskyy, descrevendo-o como uma ameaça à segurança nacional da Ucrânia.
As sanções incluem congelamento de bens e restrições à atividade comercial, bem como ao uso e distribuição de material protegido por direitos de autor na Ucrânia, permitindo limitar ou proibir o acesso a “Masha e o Urso” no YouTube e noutras plataformas. Em Portugal e outros países, a série está disponível na Netflix e pode também ser vista integralmente no YouTube.
O Kremlin condenou a decisão de Kiev esta sexta-feira.
Dmitry Peskov, porta-voz de Vladimir Putin, afirmou que a decisão de visar o programa infantil “mostra a fealdade do regime de Kiev”.
O que mostra "Masha e o Urso"
Inspirado de forma livre num conto popular russo, “Masha e o Urso” acompanha as aventuras de uma menina e de um urso de circo reformado que vivem na floresta.
Lançado pela primeira vez em 2009, foi entretanto traduzido em dezenas de línguas e conquistou uma vasta audiência internacional em mais de 100 países, no YouTube e em plataformas de streaming.
O sucesso é particularmente evidente no YouTube, onde os episódios somam milhares de milhões de visualizações. Um exemplo é o episódio “Receita de Desastre”, que se tornou um dos vídeos mais vistos da plataforma, com mais de 4,6 mil milhões de visualizações.
O enorme alcance do desenho animado tem também suscitado atenção crítica pelo uso de imagens militares russas e soviéticas numa programação dirigida a crianças em idade pré-escolar.
Num dos episódios, Masha surge com um chapéu associado ao NKVD, a polícia secreta e agência de segurança soviética. Durante a era de Joseph Stalin, o NKVD conduziu uma vasta campanha de terror político e foi responsável pela gestão dos gulags.
Noutro episódio, a menina aparece com o que parece ser um boné de tripulação de tanque e um uniforme da era soviética. As autoridades ucranianas defendem há anos que isto contribui para normalizar símbolos russos e soviéticos junto de públicos infantis.
As preocupações em Kiev são anteriores à invasão russa em larga escala de 2022.
Em 2017, uma comissão da Agência Estatal de Cinema da Ucrânia analisou um pedido para proibir o desenho animado, na sequência de acusações de que continha narrativas de propaganda russa.
A questão voltou a ganhar destaque no ano passado. Em agosto de 2025, “Masha e o Urso” foi o canal infantil mais popular do YouTube entre os espectadores ucranianos.
Dois meses depois, a Polícia Nacional da Ucrânia apelou à aplicação de sanções.
Críticas para lá da Ucrânia
O debate entretanto ultrapassou as fronteiras da Ucrânia.
No início deste verão, mais de 50 deputados britânicos escreveram à ministra da Cultura britânica, Lisa Nandy, pedindo às plataformas de streaming que retirassem o desenho animado, alegando que alguns episódios expõem crianças a imagens militares russas e soviéticas.
Os parlamentares destacaram em particular imagens de Masha com roupa de inspiração militar, utilizadas também pela conta em inglês da Animaccord nas redes sociais.
Defenderam que o material está “a normalizar ativamente a iconografia militar soviética junto de uma audiência global de crianças pequenas”.
A Animaccord rejeitou veementemente as acusações de que o programa serve de propaganda russa. A Ucrânia afirmou que vai procurar que os parceiros internacionais reflitam as mais recentes sanções, alargando potencialmente o seu impacto para lá do país.
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