Tribunal tailandês demite primeira-ministra por telefonema comprometedor com líder cambojano

O Tribunal Constitucional tailandês demitiu a primeira-ministra Paetongtarn Shinawatra, na sexta-feira, depois de ter considerado que ela tinha violado as diretrizes éticas ao falar com um alto funcionário cambojano por telefone.
A decisão põe termo ao mandato da mais jovem primeira-ministra do país e constitui o mais recente golpe para a poderosa dinastia Shinawatra, que domina a política tailandesa há mais de duas décadas.
Numa votação por 6-3, os juízes consideraram que a conduta de Paetongtarn numa chamada telefónica de 15 de junho com o antigo líder do Camboja, Hun Sen, comprometeu os interesses nacionais.
O telefonema, que se tornou público poucas semanas antes da eclosão de um conflito fronteiriço mortal entre os dois países, provocou indignação na Tailândia.
No áudio da conversa, Paetongtarn fala sobre a situação tensa na fronteira, chama Hun Sen de "tio" e parece chamar um general do exército tailandês de "adversário".
Paetongtarn, de 39 anos, defendeu-se, argumentando que o seu tom familiar durante o telefonema era uma tática de negociação destinada a desanuviar as tensões. Paetongtarn também pediu desculpa, insistindo que a sua conversa não prejudicou a segurança nacional.
Queixa sobre alegado alinhamento com o Camboja
A queixa contra Paetongtarn, apresentada por um grupo de senadores, alegava que "devido a uma relação pessoal que parecia alinhada com o Camboja, (ela) estava constantemente disposta a cumprir ou agir de acordo com os desejos do lado cambojano".
O tribunal acusou ainda a deputada de ter feito referência ao general tailandês "sem honestidade e integridade demonstráveis e violando gravemente ou não cumprindo as normas éticas".
No entanto, o tribunal afirmou na sua decisão que Paetongtarn pretendia defender os interesses nacionais da Tailândia e tentou evitar conflitos graves que pudessem afetar a sua soberania e segurança fronteiriça.
Concluiu que as suas ações não pareciam ser claramente desonestas, embora a opinião da maioria tenha considerado que a sua conversa constituía uma violação das normas éticas.
Após a decisão do tribunal na sexta-feira, Paetongtarn disse que a aceitaria, mas insistiu que estava inocente e que tinha agido com o único objetivo de salvar vidas.
Uma chamada telefónica que se tornou pública
O áudio do telefonema foi divulgado online por Hun Sen, que foi primeiro-ministro do Camboja durante 38 anos, até o seu filho Hun Manet assumir o cargo em 2023. A chamada telefónica ocorreu num momento em que as tensões fronteiriças de longa data se agravaram depois de um soldado cambojano ter sido morto num breve confronto com tropas tailandesas em território disputado, em maio.
No final de junho, os dois países envolveram-se em cinco dias de combates que mataram dezenas de pessoas e deslocaram mais de 260.000.
O tom amistoso do telefonema de Paetongtarn suscitou o receio de muitos tailandeses devido ao historial da sua família.
O seu pai, Thaksin Shinawatra, um empresário que ganhou uma grande fortuna no sector das telecomunicações e que foi primeiro-ministro de 2001 a 2006, enfrentou no passado alegações de colocar os seus interesses pessoais acima dos da nação, e tinha uma amizade aparentemente calorosa com Hun Sen.
A decisão de sexta-feira é também um golpe para Thaksin, que foi deposto do poder por um golpe militar mas conseguiu manter-se como uma força dominante na política tailandesa
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