Polícia espanhola nega relatório que atribua a Marrocos responsabilidade pelas chegadas de migrantes a Ceuta
O chefe da polícia espanhola, Francisco Pardo, comunicou ao ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, que não existe qualquer relatório policial que atribua às forças de segurança marroquinas o planeamento ou a execução dos acontecimentos ocorridos em Ceuta no final de julho.
A resposta surge depois de Marlaska ter pedido à polícia que esclarecesse um relatório que acabou por ser divulgado publicamente, no qual a polícia espanhola culpava as forças de segurança marroquinas por orquestrarem a entrada de migrantes no enclave de Ceuta na semana passada, segundo fontes do ministério na quarta-feira.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, afirmou na segunda-feira que Marrocos não era responsável, acusando, em vez disso, Israel, a Rússia e a extrema-direita de espalharem desinformação sobre a entrada em massa de cerca de 70.000 migrantes em Ceuta.
Sánchez disse à rádio Cadena SER que "nenhum serviço de informações com o qual o governo espanhol coopera habitualmente" tinha sugerido "qualquer envolvimento, de uma forma ou de outra, das autoridades marroquinas".
O jornal online El Español noticiou na terça-feira que o Centro Nacional de Imigração e Fronteiras (CENIF) de Espanha afirmou, num relatório considerado explosivo, que o incidente "foi orquestrado pelas forças de segurança marroquinas... com um objetivo que não era a migração".
O ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, exigiu ao chefe da polícia, Francisco Pardo, que verificasse e esclarecesse a informação, que terá sido enviada a um juiz encarregado de recolher informações sobre o incidente, de acordo com fontes do ministério.
Nos seus comentários, Grande-Marlaska dá a entender que o governo espanhol tomou conhecimento das alegações através de notícias na comunicação social, o que poria em causa a narrativa de Madrid de que o afluxo foi impulsionado principalmente por relatos nas redes sociais e amplificado por traficantes de seres humanos.
"Qualquer informação desse tipo deveria ter sido imediatamente disponibilizada ao Conselho de Segurança Nacional... e a outros órgãos com competências nesta matéria", afirmou o ministro na sua carta ao chefe da polícia, enviada após a publicação da notícia no jornal.
Mais de 70.000 migrantes entraram no pequeno território espanhol no norte de África entre 30 e 31 de julho, nadando ou atravessando a pé a partir do vizinho Marrocos, numa onda de afluxo sem precedentes que causou dezenas de mortos.
Alguns analistas sugeriram que a crise poderá ter sido uma mensagem enviada a Espanha por Marrocos relativamente ao disputado Saara Ocidental, depois de Sánchez ter visitado a Argélia, inimiga histórica de Rabat, em julho.
O Saara Ocidental é uma antiga colónia espanhola, em grande parte controlada por Marrocos, mas reivindicada pela Frente Polisário, pró-independência e apoiada pela Argélia.
Ponto nevrálgico político
O afluxo desencadeou novas tensões no seio da União Europeia em torno do tema sensível da imigração e representou um golpe para uma das suas principais conquistas, o espaço Schengen de livre circulação.
O governo de direita da Itália impôs controlos fronteiriços durante um mês aos viajantes provenientes de Espanha na sequência da crise, tendo Madrid tomado medidas recíprocas uma semana depois.
Ambos os governos anunciaram, na segunda-feira, uma prorrogação de 15 dias dos controlos.
Embora a grande maioria dos migrantes tenha regressado a Marrocos em poucas horas, milhares permanecem no minúsculo território de 18 quilómetros quadrados e 84.000 habitantes, muitos dos quais a viver nas ruas.
O seu destino tornou-se um importante ponto de tensão política, com a oposição conservadora e de extrema-direita a exigir que todos aqueles que entraram em Ceuta, incluindo menores, sejam devolvidos a Marrocos.
Os residentes de Ceuta têm realizado manifestações regulares devido ao que consideram serem problemas de segurança e higiene associados ao afluxo.
Sánchez afirmou que em breve estarão disponíveis 6.000 vagas nos centros de acolhimento do território para migrantes, cuja situação deve ser verificada pelas autoridades espanholas antes de qualquer eventual regresso a Marrocos.
Comprometeu-se ainda a disponibilizar 168 milhões de euros adicionais em ajuda a Ceuta para fazer face à crise.
No final de agosto, Madrid solicitou à Comissão Europeia (CE) o apoio da Frontex, da Europol e da Agência da União Europeia para o Asilo (EUAA) para ajudar na triagem e no processamento dos migrantes que se encontram em situação irregular em Ceuta.
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