Abate e transplantação de árvores para criar mais estacionamento em Lisboa gera polémica

O abate e transplantação de 47 árvores, a maioria delas jacarandás, numa das principais avenidas de Lisboa tem motivado a contestação de milhares de cidadãos na última semana.
A informação começou a circular nas redes sociais, depois de a Câmara Municipal de Lisboa ter afixado folhas A4 nas árvores em causa a comunicar a intervenção.
"Intervenções no Arvoredo. Por motivo de urbanização, e por não ter viabilidade para transplante, esta árvore será abatida. No âmbito da obra será substituída por novos exemplares de outra espécie. Obrigado pela sua compreensão", lia-se na comunicação aos moradores.
O motivo é a construção de um parque de estacionamento subterrâneo, enquadrado na urbanização dos terrenos da antiga Feira Popular, que prevê a remoção de 47 das 75 árvores existentes na Avenida 5 de Outubro. Dessas 47 árvores, prevê-se o abate de 25 e o transplante de 22.
Os lisboetas responderam com uma petição pública, que conta à data com mais de 53 mil assinaturas.
No texto da petição critica-se "o abate destas árvores e falta de transparência na planificação da construção deste parque de estacionamento subterrâneo, em especial num local que se tem transformado cada vez mais numa ilha de asfalto, cimento, pó, automóveis e barulho, sem grande solução à vista por parte da CML".
"Os jacarandás são uma ferramenta fundamental: numa cidade cada vez mais quente, refrescam as ruas fustigadas pelo calor refletido pelo chão, chapas de obras e prédios, e contribuem para a substituição de CO2 por O2 e filtrando o ar", sublinham os criadores da petição.
Através das redes sociais, o município liderado por Carlos Moedas (PSD/CDS-PP) respondeu com uma publicação em que garante que a avenida "vai ficar mais verde e com mais árvores".
A obra promete a replantação de novas árvores, pelo que, após 2027, quando o parque de estacionamento estiver pronto, a avenida passará a contar com 118 árvores.
"A intervenção tem por objetivo construir o novo parque de estacionamento público de Entrecampos e, no final, será duplicado o número de árvores naquela zona, o que contrasta com o plano original para a zona, que previa que todas teriam que ser cortadas. O projeto em execução considera um aumento considerável de área verde e permeável através da plantação de nova vegetação de mais de 30 novas espécies de arbustos e herbáceas, com mais 41 árvores que atualmente, na Av. 5 de Outubro, permitindo, assim, um aumento de área de sombreamento e de passeios permeáveis da avenida para cerca de 3500m²", esclareceu a autarquia na descrição da publicação.
Dada a indignação da população lisboeta, além das publicações nas redes sociais ao longo da semana passada, a Câmara de Lisboa deu uma conferência de imprensa na terça-feira passada e agendou duas sessões públicas de esclarecimento.
Intervenção arrancou antes de sessões de esclarecimento
Uma seria na sexta, dia 29 de março e a outra na quarta-feira desta semana, dia 2 de abril. Contudo, apesar da marcação dessas sessões, na manhã da quinta-feira passada, dia 28, os cidadãos foram surpreendidos pelo início dos trabalhos de remoção e transplante de jacarandás.
Algumas árvores foram isoladas dentro de um perímetro e começou a escavação da terra para isolar as principais raízes. O início dos trabalhos contrariou também declarações de responsáveis da Câmara de Lisboa, que haviam indicado que os primeiros transplantes ocorreriam apenas na semana seguinte.
Nesse mesmo dia, os trabalhos estiveram interrompidos por algumas horas quando duas mulheres invadiram o perímetro da obra em protesto contra a remoção das árvores.
O protesto isolado obrigou uma equipa de intervenção rápida a deslocar-se ao local para retirar as duas mulheres. Os trabalhos foram depois retomados.
Intervenção suspensa após providência cautelar
No entanto, na sexta-feira a terra foi reposta pelos trabalhadores, que voltaram a tapar as raízes das árvores que estavam a ser preparadas para ser removidas. E a intervenção foi entretanto suspensa, podendo estar em causa a providência cautelar que o partido ambientalista PAN interpôs para impedir o abate das árvores.
Para além de considerar que "a obra em questão é lesiva dos interesses coletivos e ambientais, uma vez que o benefício imediato de criação de estacionamento automóvel é contrário às metas de neutralidade carbónica", o PAN acusa ainda o executivo municipal de estar a "violar os princípios do desenvolvimento sustentável e da prevenção ambiental".
O partido liderado por Inês Sousa Real sublinha ainda que "os jacarandás da Avenida 5 de Outubro possuem um valor ecológico, paisagístico e cultural inestimável", alertando que estas árvores que têm benefícios ambientais, tais como "sombreamento, redução de temperatura urbana e sequestro de carbono, são insubstituíveis a curto prazo."
Perante a polémica cada vez mais acesa, a Câmara de Lisboa também procedeu à plantação de 15 novos jacarandás em dois terrenos ao lado da estação de comboio de Entrecampos, junto à Avenida 5 de Outubro. Esta plantação foi realizada entre sexta e sábado, dias 28 e 29 de março.
Também na sexta-feira, ao final do dia, a sessão pública que estava prevista foi adiada, "tendo em conta o número de pessoas inscritas e as muitas que ficaram sem conseguir ter acesso devido à limitação de lugares da sala", justificou a autarquia. "Foi decidido o adiamento e concentração numa única sessão técnica de esclarecimento", que irá decorrer no Fórum Lisboa, esta quarta-feira, 2 de abril, a partir das 18h30.
Enquanto Lisboa abate árvores para construir parque de estacionamento, Paris corta estradas ao trânsito
A comparação tem sido feita nas redes sociais desde o início da semana, quando foram anunciadas estas duas decisões. A capital francesa deu mais um passo na mobilidade sustentável. Através de um referendo, os cidadãos aprovaram no passado domingo, 23 de março, um projeto de pedonalização e ecologização em 500 ruas de Paris, que se juntarão às 300 onde o trânsito automóvel já é proibido.
"A favor ou contra a plantação de vegetação e a pedonalização de mais 500 ruas em Paris, em todos os bairros?", era esta a questão feita no referendo. Com o "sim" obtido na consulta pública, a mudança vai implicar a eliminação de 10 mil lugares de estacionamento, cerca de 10% do total existente.
A pedonalização e a criação de espaços verdes são, segundo Lamia El Araje, vereadora responsável pelo planeamento urbano, fundamentais para preparar Paris para as alterações climáticas. A proposta foi aprovada com 65,96% dos votos a favor, apesar de só terem participado 4% dos eleitores parisienses.
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