Do ouro branco ao "novo petróleo": porque é que a riqueza mineral da Gronelândia está no centro das atenções?

A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, deverá visitar a Gronelândia esta quarta-feira, numa altura em que as relações diplomáticas entre Washington e a Dinamarca atingem um novo patamar, depois de os Estados Unidos terem manifestado o desejo de assumir o controlo do território autónomo da Gronelândia. Mas, embora o presidente Trump continue a insistir que se trata de uma questão de segurança nacional, não escondeu o interesse nos recursos naturais da vasta ilha do Ártico.
Pode não ser, tal como aparece no mapa do mundo em projeção de Mercator, tão grande como África - mas a Gronelândia está, à sua maneira, a tornar-se objeto de uma corrida aos recursos por parte de potências mundiais cobiçosas, como aconteceu com África no final do século XIX.
Aquela que é a maior ilha do mundo é equivalente a metade da superfície terrestre de toda a UE. E, com 2,17 milhões de quilómetros quadrados, é 25% maior do que o Alasca - que é, de longe, o maior estado dos EUA e, atualmente, o único ponto de apoio do país na região do Ártico.
E é rico. Não no sentido desenvolvido da superpotência petrolífera regional vizinha, a Noruega, mas nas suas reservas potenciais de matérias-primas apelidadas de “críticas” por Bruxelas - desde produtos básicos como o cobre e a criolite até ao cobalto, ao lítio e a uma infinidade de metais de terras raras, cada vez mais procurados pelo setor da energia verde e das tecnologias digitais. Não é sem razão que estes metais têm sido designados de “novo petróleo”.
Ouro branco
Num momento bastante inconveniente para o governo dinamarquês, foi lançado, este ano, um documentário que afirma que as empresas mineiras dinamarquesas extraíram o equivalente a dezenas de milhares de milhões de euros de criolite na costa oeste da Gronelândia, ao longo de 130 anos, alegadamente sem investir muito na economia local.
A área em torno da mina em questão, em Ivigtût (agora Ivittuut), no extremo sul da Gronelândia, está a ser ativamente estudada pela empresa australiana Eclipse Metals, que adquiriu direitos de exploração em 2021. A empresa anunciou, na semana passada, que teria em breve o resultado de amostras de núcleos de perfuração que espera que confirmem depósitos significativos de metais de terras raras.
Mas a mina histórica - que se tornou um poço enorme, circular e inundado desde o seu encerramento, em 1987 - é considerada apenas a ponta do icebergue metafórico dos recursos minerais da Gronelândia, cuja acessibilidade está a aumentar à medida que o gelo derrete, literalmente.
Num relatório anual publicado no final de janeiro, o Serviço Geológico dos EUA estimava em 1,5 milhões de toneladas as reservas de metais de terras raras da Gronelândia.
"Grande potencial"
O Serviço Geológico da Dinamarca e da Gronelândia (GEUS) foi bastante mais efusivo, anunciando, em 2023, ter identificado "um grande potencial para matérias-primas críticas na Gronelândia", ao publicar um relatório pormenorizado.
“Muitas matérias-primas críticas da lista da UE podem potencialmente ser encontradas na Gronelândia”, afirmou o organismo consultivo independente do Ministério dinamarquês do Clima, da Energia e dos Serviços Públicos, referindo-se à lei relativa às matérias-primas críticas que identifica 34 elementos essenciais, metade dos quais são considerados de grande importância geoestratégica para a Europa.
Os EUA podem ter preocupações de segurança genuínas relativamente a uma área do mundo que, vista de cima, é substancialmente cercada pela Rússia, Canadá e Gronelândia. A Noruega tem uma base de apoio no Ártico, nas ilhas Svalbard, oposta à dos Estados Unidos, no Alasca.
Embora a visita do vice-presidente dos EUA, JD Vance, à Gronelândia, na semana passada, tenha sido ostensivamente uma inspeção a um posto avançado do exército norte-americano - os habitantes locais deixaram claro que a sua comitiva não seria bem-vinda a quaisquer eventos culturais - o seu chefe deixou claras as suas intenções.
Jens-Frederik Nielsen, antigo ministro da Indústria e dos Recursos Minerais, foi nomeado primeiro-ministro da Gronelândia pouco antes da chegada de Vance e da sua comitiva. Já declarou que o seu país não está à venda e vai agora receber a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, no âmbito de uma visita oficial de três dias.
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